Webdomadario
archives

Mais Ricardo Dias no Internet Azul.


13.10.07

 
Aqueles que admiram estas bem-traçadas - e são milhões! - já perceberam que por aqui não se foge de assuntos espinhosos. De um modo geral ficamos ao lado dos poderosos, dos ricos, dos bem nascidos, e, se alguém vier oferecer um agradinho, melhor ainda. Este site está antenado com a modernidade, e se continuar assim, breve disputará vaga no senado da república - sim, em minúsculas. Mas há questões espinhosíssimas. Por conta de alguns pés rapados, o Supremo - por enquanto, em maiúsculas - resolve que o mandato pertence ao partido. Nosso sistema eleitoral é engraçado: você vota no Zé da Silva. Vê o cartaz dele, ouve o discurso dele, acredita nele, e sem saber, vota no partido dele, eventualmente elegendo o João das Couves, que você não conhece, não ouviu as mentiras nem viu o cartaz. Excrescência maior é supor que este tipo de medida seja bom para a democracia, pois não há democracia sem partidos fortes. Repito e trepito: não há democracia sem judiciário forte. Partidos são um saco de gatos dominados por um gato-mestre, que usualmente vê seus melhores interesses antes de qualquer outro. É claro que há negociação de vagas, que partidos compram deputados, etc e etc. Mas os partidos que compram as vagas não são punidos; só os comprados. Então fortaleçamos os partidos; fortaleçamos o PMDB que retirou do comitê os senadores Pedro Simon e Jarbas Vasconcellos, pois estes não rezam pela cartilha de Renan. Partido forte serve é para isso. Mas os mini canalhas, que gostam de vender sua vaguinha, não se preocupem. Basta argüir a constitucionalidade da medida que ganham seu mandato de volta, mode poderem continuar defendendo o povo. Povo lá de casa, mas povo. A Constituição lista as hipóteses de perda de mandato, e infidelidade partidária não está ali. Se bem que também diz que o salário mínimo deve ser capaz de sustantar uma família, e... deixa.
Mas tem mais, tem mais. O senador Wellington Salgado, junto com o intelectual Almeida Lima campeão da defesa de Renan, está sendo investigado por, no dizer de Chico Buarque, tenebrosas transações. Noblat nos informou há tempos que a sua dele do senador mãe teria sido financiadora da campanha ao senado de Helio Costa. Este, ministríssimo, abriu vaga para o suplente: o filho da senhora Salgado, o bom cabelo Wellington. Mas isso não incomoda o supremo (em minúsculas, sem dúvida). E há dois dias Renan subiu à Tribuna para dizer que afastou o assessor acusado de espionagem, para facilitar as investigações; se for inocente, volta. Ó stupôire, não é exatamente isso que dizem para o bom Renan fazer?????
Como gostei do parágrafo anterior, deixei-o aí como estava. Mas não pude deixar de me surpreender com o pedido de licença do bom Renan. Que moço indeciso! Passa o tempo todo sendo um Dom Pedro de fancaria dizendo que fica; não mais que de repente, vai. Não se pode confiar em mais ninguém, mesmo...
Pensam que acabou? Um amigo, meritíssimo de muito mérito, me envia a notícia: uma juiza cancelou o pagamento da pensão à família de Lamarca. Situação delicada, o moço matou. Houve anistia para tudo, inclusive crimes de sangue - o que deixou muito torturador solto. Mas daí a premiar, por exemplo, com promoção (como no caso) a distância me parece grande. O Clube Militar protestou e a juíza deferiu. Palmas para a juíza, mas não vejo o Clube protestar quando criminosos como o capitão que ia colocando uma bomba no Riocentro são promovidos - o unabomber tupiniquim hoje é coronel. Mesmo porque o criminoso em questão nem minimamente competente foi, a traquitana explodiu antes da hora. Anistia, vá lá, mas promoção jamais! Falando nisso, Lulla recebe pensão por ter passado uns dias em cana. É grana boa. Fico pensando se todos os que recebem penas injustas recebem uma graninha semelhante. As famílias dos 111 presos assassinados no Carandirú recebem? Ok, só perguntei.
E, por fim, temos Guevara! Andam reinventando o sujeito. Tive uma infância difícil: lia o Pasquim e Seleções. Vivia num dilema ideológico complexo, mas essa dicotomia (se aplica aqui o termo?) gerou conseqüências, como por exemplo: nunca tive heróis, muito menos dos que saem dando tiros. Como li Winnetou (que recomendo veementemente), em filme de cowboy torcia pelos índios. Acho Fidel um ditador, pura e simplesmente (como Getúlio, Pinochet, Stalin...), e esta qualificação me impede de considerá-lo um estadista: é ditador, o resto não interessa. Sempre achei Guevara uma figura meio sociopata, que vivia buscando confusão. Liberdade? Não sei, ele defendia uma visão meio stalinista das coisas, que não condiz com liberdade. Sempre achei que ele gostava mesmo era de um fordúncio, queria motivo para sair atirando por aí. Jamais saberemos, mas repito: nunca o vi como um herói. Prefiro Gandhi, Luther King, gente bobinha assim.
Encontrei Paulo Autran na chapelaria da esquina. Ele estava experimentando um modelo novo, quase não o reconheci. Num momento, era um senhor de 85 anos; noutro, um rei; em seguida, um caixeiro viajante, depois um pão duro, depois... Pensei em puxar conversa, perguntar qualquer coisa, mas não consegui. Me limitei a olhar, quieto, e a tentar apreender um pouco da vida com alguém cujo ofício, e não o confundam com um reles senador, era mentir. Ele virou-se e saiu, calmo, digno, e nada mais pude fazer, a não ser aplaudir até as mãos doerem.

Se você quiser ser informado de updates neste site, mande um e-mail para webdomadario2 seguido da habitual arroba (que aliás em inglês se lê “at”) seguida de pobox.com. Seu e-mail não será divulgado de forma alguma, nem visto pelos demais assinantes.
posted by Ricardo Dias 13.10.07


This page is powered by Blogger. Isn't yours?