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Mais Ricardo Dias no Internet Azul.


26.5.06

 
Espero, sinceramente, que ninguém tome decisões baseado no que lê aqui. Escrevo sempre, analiso tudo, mas confesso, compungido, que não entendo nada, nunca. Tenho um amigo que só entendeu dois filmes até hoje: “Isto é Pelé” e “Garrincha, Alegria do Povo”. Dos demais, ele vê que tem um cara, tem uma mulher, eles conversam, aí aparece outra pessoa, e pronto: já não entende mais nada, ou dorme ou sai do cinema. Eu me sinto assim diante do noticiário. Me sinto sempre, mas ultimamente...
Vejamos: advogados do crime organizado lavam dinheiro, ganham fortunas. Pois o advogado acusado de pegar uma gravação (que, parece, não serviu para nada), foi de São Paulo a Brasília com dinheiro contadinho, não tinha nem para o cafezinho – fosse o real ou o eufemístico. Isso é que é demonstrar cabalmente que o crime não compensa! Pois ele respondeu, na CPI, a um deputado que foi afastado de outra CPI por se envolver em falsificação de documentos, a outra que está sendo investigada no escândalo das ambulâncias, e sabe Deus a quantos que absolveram mensaleiros! Para culminar, hoje foi esculhambado pelo refinado deputado Faria de Sá, que disse “O senhor aprende rápido com a malandragem”. O advogado, homem carnívoro, respondeu na lata: “A gente aprende muito aqui”. Foi preso para deixar de ser besta: se tivesse aprendido mesmo no Congresso JAMAIS seria preso...
Mas as coisas boas do Brasil não cansam de me surpreender: a outra advogada – advogada do chefão do PCC – é casada com um delegado. Já estava pedindo meus sais, ou no mínimo água de flor de laranjeira quando, não mais que de repente, estoura a maior de todas, uma notícia que poderia restabelecer minha sanidade: Pedro Simon candidato a presidente! Confesso, meu coração se encheu de júbilo. Agora sim, um candidato comprometido com a correção, a honestidade, a dignidade! Agora sim! Tremei, corruptos, tremei, canalhas! Até que enfim teríamos um candidato de verdade, e com chances! Já estava passando a ferro minha bandeira do MDB, ia pintar um P na frente – aquela era do tempo em que o partido era a única voz contra a Arena, partido do governo militar. Aí veio a notícia: o seu dele vice era nada mais, nada menos, que Garotinho. Tenho medo de olhar para trás e virar estátua de sal.
Passei o dia deambulando, mastigando um jiló. Ou seria giló? Que diferença isso faz, no fim das contas? Que diferença qualquer coisa faz? Encontrei um velhinho de túnica e sandálias, que me exortou a manter o prumo. Disse se chamar Cephas, mas eu podia chamá-lo de Simão Pedro. Contou que assitira ao Sermão da Montanha, e citou Jesus, tentando me animar:
- Vós sois o sal da terra, e se o sal for insípido, com que se há de salgar?
Olhei-o, não sem certa piedade, e ponderei:
-Com sal superfaturado, importado da Bolívia, com cocaína, com açúcar dizendo ser sal, pó de giz, qualquer coisa que pareça sal. Ninguém sabe a diferença mesmo, todo mundo engole qualquer coisa!

Se qualquer candidato quiser comprar sub-repticiamente este espaço, é só me procurar, agora me corrompo facinho, facinho. Garanto sigilo, ou não, afinal vivemos no Brasil, o risco é seu, é nosso, é de quem vier. Mas, se ainda assim quiser ser avisado de updates, mande um mail para webdomadario2, seguido da simpática arroba, seguido de pobox.com. Seu endereço não será utilizado para outros fins nem visualizado pelos demais assinantes. Ou não, é tudo uma questão de preço.
posted by Ricardo Dias 26.5.06


17.5.06

 
Estou me sentindo um correspondente de guerra. Não é que, em plena guerra civil PCC X SP, vim me meter justamente no olho do furacão? Estou na aprazível e progressista Presidente Prudente, interior de São Paulo, cercada de presídios, entre os quais o que hospedou o simpático Beira-Mar. Aqui travei contato – pela imprensa! Pela imprensa! – com o senhor Marcola, porta-voz da facção criminosa, de quem, confesso, jamais tinha ouvido falar. Agora sei que ele é o verdadeiro senhor da guerra, homem que detém o poder de paralisar a maior cidade da América do Sul a um estalar de dedos – transmitido por celular.
Aqui ficou tudo tranqüilo, no domingo não havia um guarda sequer na rua. No dia seguinte havia às toneladas, e perguntei a um deles que tipo de instrução haviam recebido da Secretaria de Segurança.
-Nenhuma, então o pessoal resolveu se mandar para proteger suas famílias. Hoje mobilizaram todos, a única ordem foi a de circular pela cidade.
Para quem cresceu assistindo a Kojak, SWAT, programas assim, a coisa é surrealista. E, no meio do caos total, em entrevista o governador Cláudio Lembo, com aquela cara de professor do Harry Potter, nos informa que está tudo sob controle, e que não precisa de ajuda. A antiga direita (a atual está no poder) pede sangue, execuções sumárias, e, segundo o excelente Blog do Noblat, conseguiu. Morreram 75 pessoas nas mãos da polícia. A maior parte pretos e pobres, como convém. Estavam todos em atitude suspeita, alguns, pasmem, andando pelas ruas. Houve um caso de um rapaz que foi morto, aparentemente sem motivo, mas encontraram armas na casa vizinha. Tudo explicado. Noutro caso, a mãe e o irmão de um traficante foram fuzilados sumariamente. Não houve nenhum erro, afinal, a polícia sabe reconhecer de longe quem é ou não criminoso.
É claro que se entende o nervosismo da polícia. A frieza com que os ataques foram deflagrados é de embrulhar o estômago mais forte, toda a solidariedade à polícia, mas isso não justifica saírem mandando bala por aí. Um ou outro acidente, causado pelo nervosismo, é compreensível e perdoável, mas 75 mortos é um número que fala por si.
O maior caos urbano que se tem notícia em tempos de paz, sem ter sido causado por algum desastre natural ou incêndio. A maior cidade do país parada, libertada apenas por ter havido, segundo dizem por aqui, negociações entre o governo e os bandidos. Tudo negado pelas autoridades, claro, mas existe a piada antiga, que pergunta como sabemos se um político está mentindo.
-É simples, basta observar se seus lábios estão se mexendo.
Aproveitando estar em São Paulo, fui ao encontro do ex-governador Mario Covas para conversar sobre a situação.
- O saldo disso tudo é extremamente positivo. Descobrimos que pelo menos uma instituição no país tem um líder de verdade.
posted by Ricardo Dias 17.5.06


11.5.06

 
Quem foi que disse que Deus é brasileiro?
Que existe ordem e progresso,
Enquanto a zona corre solta no congresso?
Quem foi que disse que a justiça tarda mas não falha?
(“Zé Ninguém”, Biquini Cavadão)

Estou neste momento assistindo à entrevista de emprego de Silvio Pereira, o Corrupto Maluquinho, na CPI. De emprego, sim, pois o tal depoimento que ele esqueceu do conteúdo nada mais foi que um lembrete ao PT: Olha, amiguinhos, não esqueçam que eu sei de tudo, e sou maluco. E ando precisando de um dinheirinho...
O senador Tião Vianna, zeloso que é que as coisas corram na plenitude democrática, certificou-se do teor do que viria a ser dito, e em pouco tempo pôde sossegar: seu correligionário não ia resvalar, ia cumprir a sua dele parte, e ter uma leve amnésia. Faz jus, portanto, às benesses que certamente virão. Não seria o caso da PF acompanhar o patrimônio do moço?
Mas os senadores da “oposição” me preocupam. Esbravejam, brandem suas fúrias mas não mandam prender o depoente, por exemplo; ameaçam mas não levam adiante uma cpi que detalhe o “governo” Lulla; máfia da saúde, máfia do mensalão, máfia do bingo, máfia dos combustíveis, máfia das ongs, incúria na política exterior, debilidade mental (afinal, quer fazer um gasoduto cuja chave ficaria com o impoluto Chavez!!!) e, pasmemos: não há motivo para se investigar o governo. Na CPI, diante das câmeras, espumam a ira cívica santa; depois, nos gabinetes, trocam tapinhas nas costas e, imagino, comparam alegremente suas atuações:
-Ih, maluco, você ficou vermelho, até!
-Podiscrê, foi maneiríssimo!
Há exceções, imagino; o senador Suplicy, por exemplo: todos o têm, no mínimo, na conta de excêntrico. Ele abre a boca e todos tremem; PT, oposição...
-Gostaria de saber do senhor depoente, malgrado qualquer opinião pessoal em desacordo com o exposto e pautado na mais absoluta tranqüilidade, que se coloque...
(-Fica calma, ele não vai escorregar.)
(-Sei lá, ele foi contra, é perigoso.)
-...sem que se pense por um só minuto que eu duvide de sua integridade, de sua honra ou mesmo de sua capacidade...
(-Não tem perigo, no ritmo que vai não dá para ele falar nada.)
-...tendo inclusive ouvido dizer que em reuniões internas de meu partido...
-QUESTÃO DE ORDEM! QUESTÃO DE ORDEM!
Encontrei o escritor Mario Puzo, autor de O Poderoso Chefão e diversos livros sobre o mesmo tema buquinando na Letras do Leblon. Perguntei-lhe se colhia material para algum livro por aqui, já que máfia é o que não nos falta. Ele desconversou, olhou para um lado e para o outro, e saiu rápido, sussurranso:
-De jeito nenhum, o pessoal aqui é muito perigoso!

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E essa agora? Chavez e Chapolin, quero dizer, Morales, se unem para esculhambar Lulla. Gozação cara, mas que tiraremos de letra. Perdoamos dívida boliviana, e agora eles querem aumentar 61% do preço do gás do qual somos dependentes. Mas peraí, não somos auto-suficientes? Ou entendi errado, temos é auto-suficiência no ego, não nos combustíveis? E, mais legal, Lulla quer construir um gasoduto que vem da Venezuela até aqui, e, com a ponderação e bom-senso habituais, compara a obra à Grande Muralha da China. Talvez seja apropriada a comparação, a China foi invadida com muralha e tudo, já que quem vai ficar com a chave do gasoduto é o impoluto Chavez. É mais ou menos como ser chifrado pelo melhor amigo e convidá-lo para ser padrinho do seu segundo casamento. E os bolivianos jogam sujo, já viram a foto do ministro deles? negociar com aquele cara deve ser assustador, deve dar pesadelo com aquele bocão. Aliás, eles têm ministro dos Hidrocarbonetos! Coisa chique, terão um sub-ministro para os Anéis de Benzeno, um assessor para as Hidroxilas? Sim, porque Radicais Livres lá há aos montes...
E a traição do presidente boliviano foi feia. Ele prometeu em campanha que faria isso, daí a indignação do ex-presidente Lulla: onde já se viu cumprir promessa de campanha? E agora Morales, com seu cabelinho de Playmobil, vai à Áustria dizer que nossos contratos são ilegais, e nosso Lullita Sem Noção deve chegar lá rindo, achando tudo muito engraçadinho, somos todos hermanos. Afinal, eles têm todo o direito, são uma nação soberana, podem rasgar os contratos que quiserem. Por esta lógica, nós somos o quê, já que pagamos religiosamente ao FMI et caterva?
Encontrei, escondido na rua, Luis Carlos Prestes. Parece que ele havia conspirado contra São Pedro, estava incógnito por aqui. Perguntei-lhe o que ele achava deste imbroglio todo. Ele se encrespou visivelmente.
-Eu sempre sonhei com o dia em que as esquerdas latino-americanas se uniriam para combater a direita reacionária. O companheiro Morales já começou o processo, combatendo o Lula!

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posted by Ricardo Dias 11.5.06


2.5.06

 
Estou, neste momento, ainda sob o impacto de ver o nosso ex-presidente Lulla fazer seu famoso número Joselito Sem-Noção. Durante algum tempo era até engraçadinho, dava uma certa pena. Lulla sempre teve fama de simplório, a gente achava que os assessores malvados o estavam enganando, um dia ele acordaria e veria o que estavam fazendo com ele, e, pior, o que ele estava fazendo conosco. Nesse dia, a nação agradecida o levaria nos ombros, em direção aos sonhos que sempre nos vendeu. Mas, ao vê-lo falando, achei apenas patético. Não o achei um canalha que mentia de forma deliberada, um criminoso cúmplice do bando que ora nos assalta, ou alguém que apenas quer se reeleger. Estava ali uma pessoa que ninguém sabe quem é, que talvez nem ela própria saiba mais, uma pessoa capaz de dizer que o Bolsa-Família funciona, capaz de dizer que o emprego aumentou, que a distribuição de renda melhorou! Humilde, confessa que ainda falta alguma coisinha aqui, outra acolá a ser realizada no Brasil, mas pela descrição que faz de seu próprio governo, é coisa para mais uns 15 minutos e pronto...
E não esqueçamos da auto-suficiência em petróleo! Até que ficou plástica a cena em que ele imita Getúlio. O que se esquece é que o bom Vargas foi um ditador, que era chamado de pai dos pobres – e mãe das elites. E falando em petróleo, um dos grandes amigos de Lulla acaba de dar-lhe um belo pé, estatizando o dito. Ou seja: o que muitos brasileiros sonham contra os imperialistas estrangeiros, quem fez foi o fazendeiro boliviano, e justo contra os imperialistas tupiniquins! Bem, a gente não vive dizendo que “O Petróleo É Nosso”? Pois é, eles, pelo visto, têm a estranha idéia que o deles é deles mesmo. Anti-imperialismo no dos outros é refresco.
Mas nem tudo está perdido: Garotinho faz greve de fome pela moralidade na política! O bom Bolinha resolveu fazer um spa particular. Já perdeu 700 g, e neste ritmo e com a boa forma que ostenta, faltam só uns 4 meses para Itamar disputar sozinho. Isso me preocupa: como viveremos sem sua liderança serena, seu pulso firme, seu exemplo de cristão ilibado? E, já que ele sempre prega que a mulher deve obedecer ao homem, quem governará Rosinha? E repilo firmemente todas as insinuações que ele receberá, força do hábito, comida “por fora”. Isso é coisa que não admito, insinuações assim serão sempre repudiadas por este sítio!
Por estas e por outras fui relaxar, jogando tênis com Telê Santana. Entre um ace e outro perguntei-lho como ele via a atuação da tropa de choque deste governo. Tirou da boca o palitinho que mascava, coçou a cabeça, e perguntou:
-Lembra do Anselmo?
-Quem?
-Um jogador do Flamengo, que numa partida da Libertadores foi colocado no campo exclusivamente para dar uma bordoada no adversário.
-E o que isso tem a ver?
-Tem a ver que ele, que até levava jeito, nunca mais se firmou no futebol. Apesar de ter obedecido ordens de cima, do técnico do time.
-E?
-E acho que esse pessoal, Ideli, Tião Vianna, Angela Guadagnin, devia pensar muito nisso.
Coitado do Telê, sempre um romântico. Esqueceu da tropa de choque do Collor, estava toda aí de volta. Ren... melhor esquecer.


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posted by Ricardo Dias 2.5.06


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